Jane Eyre, um livro de Charlotte Brontë
Quando Charlotte Brontë finalizou Jane Eyre já havia escrito O Professor, sob o pseudônimo de Currer Bell, que fora rejeitado diversas vezes nas editoras londrinas por carecer de maturidade. Suas irmãs, Emily e Anne Brontë - ao qual logravam junto com Charlotte de pseudônimos com os mesmos sobrenomes, Ellis Bell e Acton Bell - compartilhavam com maestria uma aceitação dos manuscritos de O Morro dos Ventos Uivantes e Agnes Grey. Porém, em 1847, quando Jane Eyre foi finalmente publicado, houve um reboliço de críticas majestosas e, junto com o tal reboliço, o mistério acerca dos Bell. Tempos após a publicação, Charlotte e Anne finalmente foram à Londres para que revelassem aos seus editores suas reais identidades.
A história das irmãs Brontë é marcada, principalmente, por uma detestável doença que assolava a Europa: tuberculose. As cinco filhas e o filho, o desconhecido poeta e pintor, Branwell, foram mortos por tal mal. Em Jane Eyre, Charlotte explora um pouco de sua trágica trajetória envolta por mortes, um amor não consumado e, ainda mais, um manifesto tão forte de liberdade numa sociedade tão limitada às mulheres.
Jane Eyre é escrito em primeira pessoa e é uma biografia da própria. A narrativa inicia-se na casa dos Reed, onde a protagonista da história é mal tratada por um tal de John Reed, filho mais novo de seu falecido tio e sua repugnante tia, junto com Georgina e Eliza, vivendo uma vida de Cinderela pré-baile, escrava num lar onde todos a desprezam e pisam. Desde sua infância, Jane Eyre já se mostra como uma jovem ao qual não abaixa a cabeça e questiona-se sobre sua vida no solar de Gatesheade. Em dado momento, enquanto delicia-se escondida com sua leitura do livro História dos Pássaros Britânicos, John Reed, o irritante e gordo jovem malvado de quatorze anos, a encontra e dá-lhe uma livrada em sua cabeça, que bate contra a parede e sangra, sangra e sangra. Ela, ao invés de chorar, pula sobre ele e o agride impetuosamente - o que culmina num castigo perverso que é ficar num quarto fúnebre.
A heroína é mandada pela Sra. Reed para o colégio interno de Lowood, por sua desobediência, aos tratos do reverendo calvinista, Sr. Brocklehurst. Em Lowood, as meninas viviam em péssimas condições, ora comendo papas, ora comendo nada. O gélido ar faziam seus pés ficarem negros feito o céu noturno e as crueldades impostas incluíam agressões e exclusões. Jane logo faz amizade com Helen Burns, uma bondosa guria ao qual a ensina viver sobre o teto de Lowood. Helen Burns é o retrato das duas irmãs Brontës mortas por tuberculose no colégio interno Cowan Brige, local onde Charlotte e Emily também ficaram com suas irmãs por um período, embora sobreviveram aos infortúnios, Maria e Elizabeth. Após a desafortunada morte de Helen Burns, Jane vê-se só, concentrando-se agora em seu crescimento em Lowood, local onde conquista por sua sabedoria, tornado-se uma bondosa professora. Mas o livro é também sobre emancipação, sobre a não acomodação da mulher, então, a heroína, ao alcançar a maioridade, põe um anúncio para trabalhar como preceptora e é aceita, deixando Lowood e indo para o monumental solar de Thornfield.
Ao chegar em Thornfield, somos apresentados a Sra. Fairfax, a governanta e parente distante do Sr. Rochester, dono do colossal solar. Adele é a pura personagem ao qual Jane cuida, vinda de uma família francesa, ao qual, após a morte de sua mãe, o Sr. Rochester viu-se obrigado a cuidar. A relação entre Jane e Adele é de uma amizade que emana leite e Jane, sentindo-se alegra e liberta das amarras de Lowood, vê-se feliz. Mas há elementos sombrios no solar de Thornfield, há árvores que farfalham na escuridão, há vozes que ecoam durante o sono dos habitantes, há um mistério obscuro que envolve feito um manto o solar.
Andejando pela floresta obscura à noite, Jane Eyre finalmente conhece o protagonista de sua história, Sr. Rochester. Ácido que só, o personagem é descrito por Charlotte como um sabichão melancólico e poético, tal com um Lord Byron, que viveu desventuras ao qual o permitiram torná-lo o que é agora. O sr. Rochester encanta-se com a figura de Jane, pela sua sinceridade e sabedoria. Em contrapartida, Jane, também encanta-se com o sr. Rochester, por sua obscuridade e arrogância. Ambos tornam-se amigos, e podemos ver aqui uma vontade implícita por parte de seu patrão em desvendar o mistério atrás dos olhos de Jane. Suas conversas noturnas, com a acidez e melancolia do Sr. Rochester e a ingenuidade e sinceridade de Jane fazem com que ambos logo sintam algo os cercando. Mas com chegada de um grupo de pessoas burguesas, Jane vê-se insegura por uma tal de Miss Ingram, ao qual a Sra. Fairfax a intitula de futura esposa do Sr. Rochester. Os sentimentos são apresentados por palavras de pessimismo, a incomunicabilidade voluntária por falta de Jane quanto ao homem quem admira.
Enquanto tais adversidades já são perceptíveis no coração da nossa doce heroína no solar de Thornfield, os habitantes de Gateshade também passam por problemas. John Reed está morto, e tal morte tornou-se tão aflitiva para a Sra. Reed que adoentou-se e está à beira da morte. Jane vê-se obrigada a visitá-la, após uma carta a convocando. Acolá, descobre um segredo terrível escondido: possui um tio que deseja doar todos os seus bens à ela. A abrupta notícia a faz sentir-se feliz. Jane, ao voltar ao solar de Thornfield, após a morte de sua perversa tia Reed, sente-se ainda colérica a respeito do casamento entre Miss Ingram e o Sr. Rochester; caso o casamento fosse consumado, Adele iria para um colégio interno, saindo das asas de Rochester e logo Jane teria que deixar o solar, abandonando seu patrão. Mas tal coisa não acontece, fazendo-nos perceber que o que a nossa heroína sentia era apenas a insegurança; numa cálida tarde de verão, o Sr. Rochester declara-se apaixonado por Jane e ambos fazem juras de amor.
A vida não poderia estar mais feliz para Jane Eyre! Mas aqui Charlotte Brontë adentra num âmbito não explorado na literatura inglesa, algo que quebra os paradigmas sobre o conceito de casamento: a identidade. Jane Eyre vê-se numa dualidade entre estar casada como Sra. Rochester e ser Jane Eyre; tão nova para ver sua juventude e liberdade diluir-se nas mãos do casamento, seu nome ter que ser modificado para um estranho sobrenome. A personagem também não aceita a sua ascensão na pirâmide hierárquica, querendo ainda ser preceptora de Adele, não admitindo depender de seu amante, embora vivendo com ele. Jane Eyre também é um manifesto feminista, uma quebra de padrão muito bem articulado pela sra. Brontë em detrimento com a situação da mulher na era ao qual vivia. O dia do casamento logo chega, mas tão logo também que é impelido de acontecer devido a acusação de tentativa de bigamia por parte do Sr. Rochester. Jane descobre a verdadeira face do homem que dizia que a amava, o homem que diz que a ama não deseja larga-la por amá-la com todo o coração. A histérica mulher de Rochester é apresentada, a situação torna-se mais caótica para o nobre e moral coração de Jane quando o sr. Rochester a imbui que não há nada de mais em continuar em tal situação se ele não ama e não acredita em tal casamento. Mas Jane, impelida a continuar vivendo sob os preceitos morais, numa alvorada, deixa Thornfield.
O corajoso coração de Jane Eyre, o instinto de sobrevivência a permite viver sem comida por, conhecendo a maldade humana, conhecendo a bondade humana e, finalmente, a proporcionando uma nova vida. Agora estamos falando numa Jane Eyre ao qual viveu e evoluiu; agora, acolhida pela bondade do Saint John Rivers, junto com as suas irmãs, Mary e Diana, com uma fortuna estimada em vinte mil libras e um emprego de professora num pequeno colégio só de garotas. Mas oh, claro que os seus pensamentos ainda encontram-se no Sr. Rochester, claro que o seu bravo coração ainda pertence à ele, dias e noites andejando e andejando, pensando nalgum dia em encontrá-lo novamente, nalgum dia em sondá-lo, nalgum dia em beijá-lo novamente. As vozes noturnas pairam sobre sua cabeça, as vozes que chamam pelo seu nome, uma voz que a faz querer seguir novamente ao solar de Thornfield e sentir-se acalentada pelos braços do sr. Rochester.
Os eventos seguidos por Jane são leves feito pluma: nossa heroína, impulsionada por seu desejo arrebatador incendiando todo o seu corpo, volta para o Sr. Rochester, embora, o mesmo, vulnerável e cego após o incêndio que se sucedeu no solar de Thornfield. A personagem o faz o homem mais feliz do mundo, libertando-o dos dias melancólicos e vulgares.
"O meu Edward e eu somos, pois, felizes, e tanto mais quanto aqueles que estimamos o são igualmente."
Jane Eyre é um romance envolto por uma atmosfera soturna e fulminante. Os conflitos internos da personagem em relação aos padrões morais torna-o revolucionário; Charlotte Brontë marca o leitor com a quebra excessiva de paradigmas impostos pela sua sociedade, seja no âmbito religioso, seja no relacionamento entre homem e mulher, seja na construção de sua personagem, livremente descrita como feia e sem muitos atributos, ao qual, em sua época não era habitual. O ambiente de Jane Eyre evoca o romantismo inglês, com seus fabulosos castelos, suas árvores farfalhantes e o avassalador desejo pela noite; a escrita de Charlotte é firme, dominante. O leitor é convocado a cada página a não deixá-la, anelante pelo desfecho desta extraordinária biografia de umas das heroínas mais grandiosas da literatura inglesa, Jane Eyre.
As imagens são pertencentes ao filme Jane Eyre, lançado em 2011.





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