As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, 1972
"Eu acho que as pessoas foram feitas para precisarem umas das outras. Mas não aprenderam a viver juntas." O amor como monopólio pode ser devastador - os romancistas e os poetas que o digam. Quando alimentado bem, sendo a presença da pessoa amada como uma proteína para o organismo, é inspiração, luxúria, corpo e alma; quando mal alimentado e deixado de lado, quando o ser amado desvia-se, mesmo que por uns minutos, o cenário torna-se caótico, acompanhado de ondas revoltas quebrantando-se violentamente enquanto os trovões caem feito a ira de um Deus.
Milan Kundera, um célebre escritor e filósofo pós-moderno bem o disse num dos seus livros mais famosos, talvez o mais famoso, A Insustentável Leveza do Ser, sobre o olhar da pessoa amada:
“Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura um olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público.(...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem o seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, as dos que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqueles do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão.(...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Se ele chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus chacoalha na estrada da Tailândia e ele sente que os olhos de Sabina estão pousados sob ele.”
Assim, numa das obras primas do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, ao qual estreou com maestria, primeiramente no teatro, e apenas sete meses depois, em 1972, nos cinemas, o longa As Lágrimas Amargas de Petra von Kant é permeado com temas já conhecidos pelos admiradores de Fassbinder - decadência, família, embora aqui explorado de uma forma rasa, o trágico amor.
Na trama, Margit Carstensen interpreta a célebre e solitária Petra von Kant, ao qual sua vida pessoal marcada por angústias de relacionamentos fracassados com homens culminou para que a frieza tomasse uma forma sólida dentro de seu ser, gelo condensado quase inquebrável. Sua paciência tornou-se tão limitada quanto o tamanho de uma unha. Possui uma filha, mas a mesma estuda em um colégio interno e quase não a vê, mas não se importa., pois tem o glamour e os cigarros. Sua única "companheira" chama-se Marllene, uma faz-tudo que nutre em si um amor platônico, incomensurável, pela célebre estilista.
Marllene é uma incógnita. Três anos na vida de Petra e poucas palavras devem ter sido pronunciadas. Fassbinder constrói a personagem através de seu olhar. Logo, assim quando a primeira visita de Petra, Sidonie von Grassenabb, adentra em seu quarto e inicia um diálogo, a melancolia de Marllene revela-se em seu olhar através de uma parede de vidro. Sindonie apresenta à Petra uma querida amiga, Karin, jovem belíssima aparentemente bem educada da classe inferior. A estilista a convida para jantar e, após um longo papo de alma com Karin, ao som do datilografar irritante de Marllene, que soava como um manifesto, Petra percebe-se densamente apaixonada por Karin e a convida para morar em sua casa, sabendo e aceitando o fato de que Karin é casada e está à beira de um divórcio com um homem que não está por perto.
Nenhum casal está isento do poder do senhor do tempo, seja lá quem ele for. A convivência tornar-se um dos instrumentos mais eficazes, se não o mais eficaz, para arrancar o véu que inibe toda a atmosfera enganosa ao qual as paixões nos permitem ver; se elas são verdadeiras ou não, caberás a nós julgarmos antes do que o tempo nos mostre? Petra von Kant e Karin já não são o mesmo casal, assim como a obsessão de uma tornou-se um apetrecho de tortura para a outra. Karin já não é mais a mesma jovem terna que Petra conheceu, tornou-se abusada, com respostas sádicas que o frágil coração de Petra não conseguia aguentar. O marido de Karin, abruptamente, reaparece com um telefonema, fazendo com que a jovem corra novamente para seus braços, abandonando Petra que chora, de modo inconsolável, ao chão. A única testemunha é inaudível, Marllene, que, maltratada por Petra, ainda sim sente uma profunda empatia.
O tempo também é devastador para as almas inconsoláveis. Em Petra von Kant, o único subterfúgio para a dor é continuar dentro da membrana da mesma, com alguma esperança maquiada em seu rosto de que um dia Karin ligaria, que ela se importaria; o medo de deixar-se ir arranha suas cordas vocais, solidifica-se dentro dela uma amargura; Petra von Kant viu-se impotente. Não havia ninguém que pudesse deter sua derrota naquele momento, muito menos a visita de sua filha, de sua mãe e de uma amiga, Sidonie, em seu aniversário de trinta e cinco anos. A onda voltou-se em refluxo, atacando todos aqueles que estavam na praia banhando-se. Matraqueava enquanto todos assistiam sua decadência, esperneava ao chão e dirigia palavras grosseiras para todos presentes; maltratava ainda mais a única mulher verdadeira consigo, companheira, a pobre Marllene.
A percepção, abrupta, ou lenta, daquilo ao qual você não notava, daquilo ao qual tapava sua visão, pode ser um perfeito emergir de um lago soturno. Petra von Kant emerge desse lago, notando que nunca a amou. O desejo de ter alguém ou algo como monopólio talvez não seja amor, pois talvez o amor não se baseie na posse, mas na cumplicidade. Quando a personagem viu-se fora desse lago, percebendo quem estava ali o tempo todo, mas quem estava ali o tempo todo já não se encontra mais ali em nenhum momento de sua emersão. Marllene, sua única companheira em todo o percurso, agradecida pela oportunidade ao qual Petra deu à ela, volta-se contra ela. A luz se apaga, as roupas na mala e a personagem vira os seus olhos para a tão antes contemplada Petra von Kant.
Rainer Werner Fassbinder aborda no longa-metragem a fragilidade do ser em relação as paixões. A transmutação de Petra von Kant, de um ser gélido para um ser frágil, de um ser frágil novamente para um ser gélido e desgastado devido a sua desilusão também torna-se perceptível. A ideia de que em ambos os relacionamentos, tanto o homossexual quanto o heterossexual, tendem ao fracasso faz-nos perceber que todos nós estamos expostos ao sofrimento, uns passarão com cabeça erguida, outros passarão com dificuldade, outros jamais passarão. Talvez, tudo seja uma simples escolha do ser: afogar-se dentro de um lago soturno, ou emergir do mesmo com triunfo tornando-se consciente de que suas experiências hão de ser, sempre, tijolos para sua eterna construção.

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