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O insólito acaso em Amor a Flor da Pele

18:59 Igor Damásio 0 Comentários Categoria : ,



A história é ambientada numa Hong Kong dos anos 60, trazendo-nos, inicialmente, de maneira simultânea, a vida de dois personagens que se mudam para apartamentos vizinhos com seus respectivos amantes. De um lado, temos o Sr. Chow, editor chefe de um jornal qualquer; doutro lado, temos Su Lizhen, a Sra. Chan, uma secretária assídua ao seu emprego. A matemática do acaso aqui é expressa com planos lentos de ambos os personagens indo em direções opostas, em cenas aleatórias, com canções que incitam a mente do telespectador a encarar os encontros e desencontros como uma forma de prelúdio.

O Sr. Chow não é lá um homem tão galanteador. Sua face, quase sempre carregando um cansaço; nos dedos da mão direita um cigarro de filtro branco ao qual parece acalentar sua alma enquanto o seu relacionamento dilui-se e esparrama ao chão. Nele há uma atmosfera de romântico idealizador, enquanto na secretária Su Lizhen há uma certa simpatia e complexidade ao qual nos faz querer adentrar em sua mente e vestir sua alma para que todas as respostas para as perguntas que temos sobre ela possam ser esclarecidas.

O acaso os fisga, de modo a pôr ambos em uma mesma rede constrangedora ao notarem que seus respectivos amantes estão tendo um caso. Inicia-se um jogo de sedução ao qual ambos anseiam pelo desejo de trocar de pele e alma com o amante do outro. A viagem ao Japão dos mesmos confirmam tal caso, assim como a mala da Sra. Chow e a gravata do Sr. Chan, idênticas. A matemática do acaso não é mais aplicável, mas sim a biologia da sedução, com os maravilhosos planos lentos enquanto o som de Shigeru Umebayashi, Yumeji's Theme, toca de modo apaixonante; os andejos leves e sedutores da Sra. Chan, os olhares densos, as mãos suaves feito seda tocando-se no táxi, os diálogos profundos sobre o matrimônio e desilusões. Ambos tornam-se amantes platônicos, compartilhando suas criatividades e gostos, tragédias e fortes abraços ternos; lascívia no olhar; dois corpos ansiando um ao outro de maneira anelante. A pureza da paixão platônica retratada com uma fotografia impecável do diretor Wong Kar Wai, que condiz com cada sutileza e sensualidade nas cenas dos encontros secretos dos dois amantes implícitos.

Amor a Flor da Pele expõe a matemática perfeita dos acasos em uma situação insólita. Wong Kar Wai nos apresenta um erotismo implícito ao qual a linguagem dos olhos e as ações dos personagens tornam a narrativa intensa, à medida em que a câmera torna o espectador espiões de uma paixão.

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