Hiroshima, mon amour de Resnais
Finalmente assisti esta obra-prima de Resnais. O diretor,
para a infelicidade do cinema, faleceu este ano, em março. Porém nos deixou uma filmografia maravilhosa.
Este longa é de 1959, e conta a história de uma atriz
francesa que viaja até Hiroshima para fazer um filme sobre o fatídico ocorrido,
porém celebrando a paz. A Francesa acaba conhecendo um japonês e os dois se
envolvem em uma profunda paixão repentina.
O roteiro do filme foi feito por Marguerite Duras, uma
escritora francesa, igualmente
talentosa, não haveria de existir parceria melhor. Duras além de roteirista,
também produziu filmes.
A primeira parte do filme é um dos inícios mais bonitos e
também tristes que já vi na vida. Com imagens fortes de sobreviventes
deformados em Hiroshima, das ruínas, da dor, e também imagens belas e simples
da cidade após a tragédia. Tudo isso em contraste com uma poesia que amassa o
ar.
Cenas de peles úmidas de suor que se entrosam. Mãos
femininas que afundam as unhas nas costas de um homem. Um duólogo de corpos.
Depois, conversas entre lençóis. Uma vez alguém me disse: '' As melhores
conversas, as mais profundas, são na cama, entre lençóis, após o gozo.'' E é a mais pura verdade. Eu nunca esqueci, e
vendo as primeiras cenas do filme, certamente me lembrei. Que beleza, esta
simplicidade, a nudez, a cumplicidade, a cama, as frases soltas.
De começo, as atuações não parecem se encaixar muito bem,
mas ao decorrer do longa, é nítido que isso evoluí pra melhor. E então Resnais,
com seu preto e branco sofisticado, com frames um tanto escurecidos, acomoda e
traz deleite aos nossos olhos.
Uma francesa e um japonês num bar em Hiroshima, o travelling
se afastando e a imagem tomando maior dimensão, então temos os dois fitando um
ao outro, um rio que corre lento do lado do bar, e as fantásticas luzes de
Hiroshima à noite. Tão bonito é quando
vemos pontos de luz dançando todo o tempo nos rostos dos personagens, nada
menos que as luzes refletidas pelo rio, tão brilhante esta composição visual.
Nas ruas de Hiroshima, a ação dos ventos nas árvores. Ruas
desertas, uma francesa caminha,prédios, incertezas e a graciosidade das luzes,
do neon.
É relembrada no filme a tragédia da 2 guerra. A dor na 2
guerra. Mas também o amor na 2 guerra. A francesa narra seu passado, sua
aflição enevoada, sua história bonita
com um soldado alemão.
Amores de uma noite. Eles duram ou só são uma faísca que
some rápido no tempo? O que nos faz querer contar toda nossa vida para alguém
que mal conhecemos?
O que nos leva a nos entregar ou se privar de se entregar?
O filme nos imbui a conceituar memória, amor. Todo ele é
sobre a luta contra o esquecimento. E sobre o tempo que se abate sobre tudo,
duro, irreparável.

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